a bitter | better person

não quero fazer um manifesto sobre como me transformar numa bitter | better person. li alguns manifestos antes de escrever isto e tenho a certeza de que não quero criar mais um. isto não é um texto de natureza dissertativa e persuasiva. isto não é uma declaração pública de princípios e intenções, com o objectivo de alertar um problema ou fazer a denúncia pública de um problema que me ocorre. isto não tem um cunho político. o bitter | better person não declara um ponto de vista, não denuncia um problema nem conclama uma comunidade para uma determinada acção. por pouco livre que venha a ser a estrutura deste texto, não me preocupo com a existência do título, com a identificação e análise de um problema, com argumentos que fundamentam o meu ponto de vista. o local e a data não são relevantes. não vou assinar o texto, nem recolher assinaturas de simpatizantes da causa. porque o bitter | better person não é uma causa. quando muito, é um processo pelo qual passo e que pretendo explicar. apenas isso. explicar. e faço-o como forma de sistematizar o bitter | better person coiso e porque me pediram para o fazer. isto é apenas uma resposta ao ‘o que é o bitter | better person?’.

começo pelo nome, que decidi definir em inglês. faço-o porque faço muita coisa em inglês. quando me queimo ao tirar uma lasanha de beringela e provolone do forno, grito fuck! e não foda-se!. quando reviro os olhos porque não gosto do rumo de uma conversa, há 50% de probabilidade de sussurrar um god! em vez de um deus me valha!. quando os copos de champagne, cerveja ou outra bebida qualquer (campari laranja, por exemplo) se tocam enquanto tento olhar nos olhos de toda a gente (porque dizem que é falta de educação não o fazer), uma em cada quatro vezes sai-me um cheers! em vez de um tchin-tchin! ou um saúde!. se já recebeste uma mensagem de texto minha, é muito provável que tenha terminado com um ‘luv u’. e reconheço que a utilização do inglês permite-me fazer uma associação de ideias mais interessante que em português. em inglês, posso associar as ideias de amargo e melhor. porque são, de facto, estes os meus dois objectivos. tornar-me melhor enquanto me torno uma pessoa mais amarga. e em português, precisava de muitas mais palavras. se criar um design ou uma imagem para este ‘processo’ (ao lerem isto em voz alta, por favor não façam o gestinho com os indicadores e os médios para que quem vos está a ouvir perceba a existência de aspas; o gestinho irrita-me); se criar um design ou uma imagem para este ‘processo’ (sem gestinho), dizia eu, posso fazer trocadilhos ou brincadeiras com a alteração de um I por um E. em português, não podia fazer isso. tomei assim uma decisão prática, rápida e visual. rápida, porque assim tinha de ser. prática e visual, porque é assim que se tomam decisões.

o tempo do bitter | better person é o tempo do ‘processo’ (sem gestinho). começou em 2009. espero que acabe algures em 2011, mas como tenho uma tendência inata para esticar as coisas que faço, pode demorar mais. tem como acções associadas, repensar-me, redefinir-me e reobjectivar-me. um monte de ‘res’ que servem sobretudo para eu descobrir quem sou e o que quero fazer daqui em diante. pode tornar-se um imperativo categórico. pode ser apenas uma fase que marca o meio da minha vida (garantiram-me que vivia até aos 60 anos). mas vai certamente acompanhar-me até ao fim da minha vida, porque no seu tempo vou tomar decisões que vão ter consequências, e são as consequências que esticam as decisões e as tornam mais ou menos imortais.

o bitter | better person não é um processo artístico. não tem como objectivo ser a base artística de um objecto criativo qualquer. é algo pelo qual eu passo. se o utilizar num processo qualquer, é apenas porque estou a ser contemporâneo e a usar a minha vida no meu trabalho e porque o nome é giro (eu acho!) e porque é a minha vida e a minha criatividade e eu faço o que quero das duas. até sobrepô-las. caso não tenham reparado, transpirei algum sarcasmo agora. não quero mal entendidos. fui sarcástico, sim, transpirar é uma metáfora, sim, e acho o nome giro, sim.

comecei por largar pessoas. não por não gostar mais delas. comecei por largar uma das pessoas que mais gosto, que sempre quis por perto e com quem me imagino a ser muito feliz até ao fim da minha vida. não por não as querer mais perto de mim. não por estarem longe. mas porque não concebo espaço para a importância que elas têm. porque sobrevivo sem elas. porque acompanhá-las, como se acompanha um twitter ou um facebook, é-me demasiado dispersivo, doloroso e consome demasiado tempo. às pessoas largadas, é-lhes comunicado o facto. apenas isso, uma comunicação. 2 ou 3 linhas que sintetizam, sem grandes encriptações, uma espécie de adeus. para terceiros, pode não fazer sentido. para mim e para a pessoa largada, tudo o que somos está lá. não espero resposta dessas pessoas. não me é importante saber se lhes é indiferente, se percebem, se acham que enlouqueci ou se se sentem magoadas. ser amargo implica, a meu ver, reconhecer que o eixo do mundo é sempre o teu eixo. se quero ser sincero comigo mesmo, tenho que assumir que o importante sou eu, e os outros na minha órbita, e portanto não quero saber dos eixos dos outros. tenho que reconhecer que o meu umbigo não é apenas uma cicatriz. a minha força gravitacional é fraca e quero-a assim. de forma permanente, retenho apenas quem necessito para continuar estável.

comecei também por reconhecer que há pessoas que não consigo largar. dependo delas. quero depender delas, aliás. numa analogia física qualquer, eu, núcleo, apenas existo se eles orbitarem em torno de mim. são poucas. são muito poucas na verdade. a minha mãe. o meu noivo. a minha ex-namorada. a minha segunda madrinha. os meus dois amores eternos. a eles, não comunico nada. não lhes escondo a mudança, é óbvio, mas eles não precisam saber o que se passa comigo. sabem-no, na medida em que orbitam em torno de mim e usufruem da minha atenção, dedicação e gravidade. os outros que se fodam. é uma espécie de ‘sê feliz longe de mim’ (sem gestinho), sem motivos para isso. quero mesmo que sejam felizes. o longe ou perto é que deixam de ser importantes.

e enquanto vou fazendo isto (que implica muito tempo e tempo é coisa que não tenho, e portanto vou fazendo basicamente só isto) vou procurando coisas para me entreter, tentando reconhecer em outros, o processo de melhorar e simbioticamente amargar.

descobri pessoas que querem deixar de ser o que são. ‘como deixo de ser gay?’, ‘como perco a minha barriga?’, ‘como deixo de ter comportamentos auto-destrutivos e começo amar-me e a amar o mundo que me rodeia e tudo fica em cor-de-rosas e cheio de borboletas ao som do my little poney tra-la-la-lusca?’ (tudo sem gestinho, por favor). sim, repete-se o sarcasmo. ou melhor, gozo, agora estou mesmo a gozar com quem pensa assim.

descobri pessoas que sabem como se processa uma mudança, seja ela qual for. o senhor alfred kinsey, por exemplo, criou uma escala de orientação sexual, e a partir daí pessoas como o senhor joseph nicolosi aperfeiçoaram métodos de conversão, de forma a passarmos de um 5 ou 6 na escala de kinsey para um 1 ou, idealmente, um 0.

descobri pessoas que se preocupam com os mecanismos sociais, culturais, políticos e de ‘jogos de poder’ (não, não é uma analogia com uma série qualquer do axn, é uma tradução livre de um termo usado pelo senhor richard dyer, de quem estou a ler os ensaios sobre a importância da representação nas imagens do cinema). e que manifestam interesse em dissecar esses mecanismos de forma a melhorar o mundo. ou eles próprios. ou as pessoas que se entretêm a ler o que eles escreveram ou a ouvir as suas palestras.

e agora, entretenho-me a explicar todo este processo a quem estiver interessado a ler e | ou ouvir. não porque isto seja importante para mim. de facto, estou já enfadado de falar sobre uma coisa sobre a qual não me pareça que haja assim tanto a dizer. prefiro continuar a concentrar-me nas pessoas e no quando e com que texto devem ser largadas. mas se for importante um dia, a sistematização está feita e posso sempre usá-la num espectáculo qualquer. como o que vou fazer a seguir. infelizmente, não há sarcasmo aqui. estou só a ser amargo.

aproveito para largar o manuel. não há nenhuma razão em particular. ele é uma das muitas pessoas boas que me apareceram no caminho ainda éramos adolescentes e que eu admiro muito por ser tão especial e por ter tido um caminho tão tortuoso. mas não tenho espaço para ele. adeus.

dedico este texto à minha tartaruguinha. não porque lhe seja mesmo dedicado, mas porque o texto é meu e eu faço dele o que quero.

1 comentário:

sandra andrade disse...

eu podia vir aqui dizer muita coisa.
mas nem quero nem sei.
portanto só vou dizer 2 coisas que acho que dizem as outras todas.

1. quero morar no teu bairro até ao fim
2. quero aprender contigo a ser bitter | better